É amigo, nenhuma Grande Guerra, nenhuma Grande Depressão.
Sábado, 23h. Ao recobrar a consciência a primeira dose desce como ácido, você vira para a morena gostosa que está na sua frente, descobre que ela é a garçonete e pede mais uma Tequila, oh, e lá se vai ela rebolando com aquele lindo sorriso traseiro, um sombreiro mexicano e um bigode postiço, regras do bar. Olhos abertos, câmera-lenta, high-five! dos amigos. 02 e 45. Uma mão quentinha nas suas bolas. Déjà vu. E lá se vai mais uma noite.
A maior parte das pessoas não se dá conta de quão inócuas e automáticas são suas vidas. Sem interesse nem ousadia. Simplesmente reclamam do perpétuo tédio, entram em depressão e se afogam em remédios. Então elas percebem seus vazios existenciais, tomando um vinho caro, se bronzeando na beira da piscina de suas humildes mansões e de repente se recordam que em breve têm que ir buscar as crianças na escola. Sim, essas são as musas plastificadas e empacotadas do cotidiano, traindo seus maridos com o personal trainer e que, quase sempre estão também se recuperando de um enxerto na bunda ou nos lábios, ou em algum outro lugar interessante. Ah, e os caras?
Na sua grande maioria gordos e acomodados, engordando cada vez mais após o casamento, diabéticos e ruins do coração, enjoados das esposas, então passam a foder empregadas e secretárias, mantendo uma relação ilusória e cômoda com a esposa, somente para aparentar um certo status necessário perante a comunidade e ambiente profissional, não se separando para não ter que dividir seus bens e ter que pagar pensão ou, nos piores casos, por pura preguiça mesmo.
Onde foi que a humanidade errou? Em que exato momento foi que nós nos perdemos? Esse lixo de mundo está doente num nível tão intenso que nem os drogados, nem os lúcidos (se é que ainda existe alguém assim), nem solteiros, nem casados, nem padres, nem monges, nem ateus, nem artistas, nem vadios, nem homens, nem mulheres, nem crianças, quase que praticamente todas as pessoas, quase que nenhum puto consegue ser feliz ou ficar satisfeito com quem é ou com o que possui. Existe nome para tal doença? Síndrome da Infelicidade Perpétua? Complexo Depressivo Compulsivo? Será essa uma condição necessária da realidade humana? Ou será que nós mesmos é que somos a doença?
Sem mencionar as guerras, as disputas, a fome, o imposto, a violência, pobreza cultural, falência do Estado, o comodismo, a superficialidade, e toda a ladainha que já escutamos há mais de 2 mil anos. Já tivemos tempo mais que suficiente para crescer e amadurecer, estamos na Terra do Nunca, Peter Pan estaria orgulhoso e muito contente conosco se ele existisse. Não queremos crescer. Não podemos e não queremos. Custaria caro demais, pouparia muitas vidas, faria o bem para a humanidade, mas… Isso iria contra todos os nossos princípios.
Ele acorda no outro dia, domingo, cansado e com o estômago péssimo. Para sua verdadeira felicidade Ela levanta primeiro e se oferece para fazer aquele café quente e amargo que ela, já familiarizada, sabe que ele adora. Conversinha matinal, um tapinha na bunda e tchau, preciso me arrumar pro trabalho, ele diz. Toma um banho, veste o terno e sai para mais um dia. A boa e velha rotina.
As guerras continuam acontecendo, aonde quer que estejam, e a fome também, os hospitais lotados e insuficientes ainda matam milhares, o suicídio também faz suas vítimas, os números de velhas histórias, não esquecidas, continuam no celular, e ainda, nada, nada muda. Ele e o mundo. Não crescem, não mudam. Continuam, ainda, apesar dos problemas, sem nenhuma Grande Guerra, sem nenhuma Grande Depressão, só a velha batalha espiritual e o grande buraco, de suas breves, mas não menos importantes existências.
Beep, beep.
Mais um dia.